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Nunca fui ao Pantanal, mas amo aquele lugar.

Aquilo que é objeto do nosso amor , nós desejamos ver, ouvir, cheirar, tocar...

O Pantanal é um desses pedacinhos do céu onde ainda quero pisar pois assim tem exigido meu corpo.

Minha alma, solidária, tentando atenuar a melancolia da distância entre sonho e realidade me diz: Não chore...

Vamos emprestar a voz grasnenta da Tetê Espíndola;

Vamos brincar de tanger a viola harpística de Almir Sater;

Vamos pensar que podemos pairar nas asas supra-gravitacionais de um cuitelinho.

 

Cuitelinho!...

Falei “Cuitelinho” e essa palavra, como que cheia-de-magia, abriu-me as janelas do pensamento e da imaginação.

O cenário todo do Pantanal, parece ter sido captado pelos olhos do poeta: Garças, botão de rosa, praia, Mato Grosso, saudade, olhos de água, coração, Cuitelinho... tudo veio à baila!

 

Senti-me no lugar dos meus sonhos.

As palavras são assim...elas tem o poder de ajudar a melhorar a nossa visão.

Cuitelinho! É assim que os primeiros habitantes do centro sul , educados mais para a sensibilidade que para o eruditismo, resolveram chamar o nosso beija flor.

 

Os cientistas deram-lhe um nome feio: Hylocartis cyanus. Não conheço ninguém que o chamem dessa maneira. Por outro lado, conheço muita gente que vive cantarolando a canção chamada “Cuitelinho” que foi , divinamente inspirada para homenagear esta fagulha da divindade.

 

Os professores que quiserem despertar as habilidades intelectuais de seus alunos, poderão ajudá-los a ver que essa música é um hino de resistência aos vândalos estupradores de nossas matas virgens. Poderão ainda, fazer brotar suas inteligências lingüísticas , ao ensinar-lhes que às palavras, não bastam tocar nossa razão. É-lhes necessário que atinjam-nos o coração e, mais que isso, abra-nos os pomares dos sonhos, coisa que a canção em pauta tem, por si só, o poder de fazer.

 

Nossa gratidão ao criador do Pantanal, por ter aparecido naquele paradisíaco panorama, um homem chamado Paulo Vanzolini que, por sua vez, chamou Xandó, afim de que juntos, pudessem recolher essa jóia do floclore nacional e depois de a lapidarem, ter nos entregue uma das mais completas traduções do Pantanal:

 

Cheguei na beira do porto

Onde as onda se espaia

As garça dá meia volta

E senta na beira da praia

E o cuitelinho não gosta

Que o botão de rosa caia,ai,ai

 

Ai quando eu vim

da minha terra

Despedi da parentália

Eu entrei no Mato Grosso

Dei em terras paraguaia

Lá tinha revolução

Enfrentei fortes batáia,ai, ai

 

A tua saudade corta

Como aço de naváia

O coração fica aflito

Bate uma, a outra faia

E os óio se enche d`água

Que até a vista se atrapáia, ai...

 

Ouçam a canção e sintam que o Pantanal é logo ali:

http://www.youtube.com/watch?v=E3Uaqd4CCR8

 

 

 

* Carlos Alberto Rodrigues Alves é Conselheiro do Conselho Estadual do Paraná, Teólogo , Músico, Violeiro e Professor Universitário em Curitiba.

 

 

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